Crônica

☀ DONA VITURINA ☀‬

Ainda povoam em minha mente aqueles anos. As coisas parecem ter acontecido na minha vida de uma forma que cada acontecimento continua forte, marcante e que ainda hoje passado tantos anos me fazem refletir sobre cada fato, cada acontecimento, situações, alegrias e tristezas de um passado que continua presente em minha memória.
Lembro-me, por exemplo, de uma das minhas visitas que fiz à minha avó materna, dona Viturina, onde fiquei muitíssimo angustiado, triste ao vê-la sentada no sofá da casa de minha tia que morava ao lado da sua casa e percebi que ela já não me reconhecia mais, o quanto estava castigada pelo tempo, pela lida ao longo dos anos e que aos poucos foi deixando-a à mercê da sorte, nas mãos de Deus.
Ai veio um filme em minha cabeça de quando eu tinha mais ou menos cinco anos, de quando ela chegava do serviço e trazia sempre alguma coisa para mim e meu irmão mais novo para brincarmos. O que eu mais gostava era dos vidrinhos de injeção (ela trabalhava num hospital), os quais eu reunia em filas feitos soldadinhos, para que eu fosse jogando minhas bolinhas de gude neles onde alguns quebravam. Chamava-os de soldadinhos de chumbo, ou melhor, de vidro.
Lembro-me também, que à noite ficávamos sentados à porta da rua(Rua 24 de Agosto ou Rua da Vala no bairro da liberdade) observando as estrelas, ouvindo suas histórias, tão ricas de carochinha, castelos, reis… Antes de deitar ela pegava uma pomada e passava em nossas virilhas pra evitar assaduras, coceiras ou irritação na pele.
Ela ficava cantarolando enquanto nos passava a pomada…
🎵Acorda Maria Bonita, levanta passa teu café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé…🎵🎵. Essa era minha preferida… Aos poucos íamos sendo envolvidos pelo sono ao som de sua voz até dormirmos completamente e sermos colocados em nossas redes.
Bons tempos aqueles. Não sabíamos o que era inflação, desemprego, fome, miséria ou tão pouco, gangues de jovens brigões. Éramos felizes no auge da inocência infantil.
Reconheço que muita coisa mudou num curto período de tempo, como a morte de minha mãe, e com isso meu pai nos levou à todos para casa de nossos avós paternos na cidade de Viana e esse afastamento dela me deixou angustiado. Ela foi muito nossa amiga, bondosa nos tempos de criança que chamo de primeira fase.
Ao retornar percebi que minhas visitas àquela senhora foram menos frequentes do que deveria ser e, honestamente, sentia-me angustiado de ir para aquele lado da cidade (anjo da guarda) pela perda que tivemos quando lá morávamos.
Tenho certeza de uma coisa que são as boas lembranças que dela guardo dessa minha primeira infância de suas histórias, brincadeiras, das noites sentados na porta, de suas canções de ninar com sua voz melodiosa……
🎵Acorda Maria Bonita, levanta passa teu café, que o dia já vem raiando e a polícia já está de pé….🎵🎵
Peço a Deus que a guarde bem junto a si mesmo agora passado alguns anos de sua partida… Obrigado por tudo Dona Viturina!

Alan Rubens

2 comentários sobre “Crônica

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