Poema – Poeta Moçambicano Efrem António

AS SEQUELAS DO NATAL

Quando chega natal
Estamos em família
Voltamos a nossa terra natal
Para encontrar primas e primos
Até aquelas primas que podemos casar
Mas, o importante nesse momento é festejar.

Quando chega natal
Comemos e bebemos de forma desregrada
Vemos os tios que já nos prometeram porrada
Aqueles que nos querem de longe
Mas de perto somos para eles uma despesa
Vemos também aquela tia que só despreza
Vemos todos menos ninguém.

Quando chega o natal
Filhos bêbados se revelam perante seus pais
Pais bêbados perdem o seu juízo emocional
As tias bicudas levantam os bicos e ferem
As poderosas aproveitam falar aquilo que pensam.

Quando chega natal
Ficamos todos em família
Reunidos em alguns dos cantos da casa
Mesmo a gente que vive se falando pelos cantos
Esquece conversa de cantos com cantos
Aqueles cantos encantados pelos bêbedos
Para encantar os vizinhos solidários
Haaa, são coisas do natal.

Quando chega o natal
Mãe e filho cantando músicas ridículas
Pai e filha dançando kizomba e funk
Os mais novos só a filmar essa vergonha
Irmãos se tocando nas partes de cunhados
Genro abraçando ridiculamente a sogra
Sogra se entregando de bandeja ao genro
Cunhada conversa demasiadamente com cunhado
Comadres trocando olhares coloridos
Haaa, só no dia 25 de Dezembro.

No dia seguinte bebemos novamente
Só para tirar a babalaza
Depois de sopa para matar a dita babalaza
Almoçamos com carne assada e verdura
Começamos a ver videos do dia anterior
Bebemos novamente para fingir que não vimos
Vemos primos todos envergonhados
Cunhados e pais com rosto amarrotado
Procurando sempre o culpado do acto
As tias começam a falar maningue
Haaa, por que não lavaste aquela tigela
Ora estou cansada, porque pobreza e tal
Daí, uma nova fase começa
Quando a gente poderosa já ameaça
Um verdadeiro after party!

Nos falamos pelos cantos
Ora, fulana fala tipo tem pilha na boca
Haaa, porque fulano come muito
Ora, esses putos quando bebem perdem controle
Ora, fulana é culpada daquele toque ridículo
E muitas outras coisas que não fazem sentido
É daí que vem mais uma cortina de ferro.

Na cortina de ferro, só fazemos campanhas
Tipo aquele escuta muito a esposa
Ora fulano disse isto mais aquilo
Até palavras nunca antes por alguém ditas
Ficamos com uma família e vários reinos
Cada reino com seus aliados
Depois daqueles toques quando estávamos unidos.

Quem não tem onde ir
É o menino que tocou no corpo da esposa do tio fulano
O culpado nisso tudo, é aquele copo de cerveja
Ora por que tal fulano de X tem inveja

A filha que dançou funk com o pai
Ganha frieza em pedir dinheiro do penso higiénico
A sogra que encostou no genro
Pede boleia do sogra até a sua casa
Comadres que trocaram olhares
Procuram um bom espaço para fazer balanço
Os cunhados, se visitam de forma desregrada
Num lugar fechado e de forma segredada.

Levamos vida desregrada
No ano seguinte passamos separados
E de seguida voltamos a ser família unida
Partimos sombra, cheios de sorrisos rasgados!

Efrem da Regina
13 de Janeiro 2020
Inhambane, Moçambique

2 comentários sobre “Poema – Poeta Moçambicano Efrem António

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