Poema – Poetisa Regiane Silva, participação no Evento do Movimento Literário de Conscientização Social ( MLCS – 2021) promovido pela página Trechos e com o apoio do blog do Alan Rubens

Movimento Literário de Conscientização Social (MLCS-2021)
Tema: A VIOLÊNCIA  CONTRA A MULHER

Maria morta, não viva

Quando menina, Maria sonhava em ser bailarina, enfermeira, médica, atleta.
Sonhos exterminados.
Cresceu. Estudou. Fez curso técnico. Trabalhou.
Por falta de oportunidade, faculdade não cursou.
Conheceu um ogro encantado.
Homem rude.

Maria,
Obrigada a parar de trabalhar fora.
Agora, só na masmorra,
Com cadeados na porta.
O ogro feliz dizia aos amigos
Em cada bar de esquina…
Ela gosta de lavar minhas cuecas com bosta.

Viver com minhas esmolas.
Deixar minha comida na mesa posta.
Preparar minha marmita fresquinha.
Deixar minha casa sempre limpinha.

Cuidar de meus filhos,
Não os de Maria.
De minhas crias.
Cachorros raquíticos em coleiras,
Galinhas sem poleiros,
Pássaros em gaiolas.

O ogro amava maltratar, prender, quem chora.
Sua canção preferida, desde a aurora.

Maria,
Com o tempo, ficou mais triste, abatida.
Nunca mais tocou em livros, cadernos.
Apagou da mente sua profissão técnica.
Vivia à base de receitas médicas.

Perdia um dente a cada tapa.
Recebia escarros na cara.
Era estuprada.
De coisas ruins, chamada.
Humilhada.

Tinha que tampar totalmente seu corpo, seu pescoço.
Esconder bem os seios.
O ogro exigia respeito em seu reino.

Maria,
Teve que se afastar de suas amigas.
Para o ogro, eram má influência, feministas.

Maria,
Depois de uma briga, foi assassinada.
Levou tiros, pauladas, facadas.
Enterrada viva, no quintal da própria casa.

O ogro, solto, ovacionado, perdoado.
Para tantos, Maria era a única culpada.
Por não ser uma mulher mais dedicada.

Por ficar com um macho que a esculachava.
Por não se divorciar.
Por lhe amar.

Tantas vezes pediu ajuda.
Olho roxo.
Marcas por todo corpo.
Falso sorriso no rosto.
Apanhava em  público, em casa.
Gritava por socorro.

Ninguém se importava.
Ninguém escutava.
Ninguém denunciava.
Agora, Maria está enterrada.
O ogro, outra Maria maltrata.
E a nova união, no altar, por outros ogros, foi abençoada.

Regiane Silva
 

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